terça-feira, 2 de agosto de 2011

Homenagem a um objeto da vida

A livre

Serei teus olhos,
Pernas e braços,
Teus poros.

Serei teus prantos
E encantos,
Teus espantos.

Serei teu alívio,
Teu suplício,
Teu viver.

Serei um alguém,
Um você,
Ou um qualquer.

Serei teu homem,
Uma filha,
Tua mulher.

Serei coisa fácil,
E moleza,
E carne dura.

Serei ora ágil,
Ora complicado.

Mas do mundo,
Comigo, terás
Múltipla leitura.
Porque sou o livre.


Dinho, eu mesmo - 08/2011



terça-feira, 5 de julho de 2011

Poemas e poetas

Rimas internas com temas eternos:
          A Arte impera em nosso inferno.

                     Arte com "A" maiúsculo:
                             Almas que não tem músculo,
                                        E que incidem como crepúsculo
                                                              No obscuro claro do céu.


E qual nosso será o papel
Para quem com através do véu     
Não visa a gama de mel                         
Existente no sujo chão?                                        


Planamos neste orfeão
Desafinando os fatos de cão,
E sentindo o mundo então
Como um não qualquer comum

E tantos entre somos um,
Que o mundo vê como em zum,
E que o exibe através dos eus,
Como se fôssemos nós o próprio Deus...




(Dinho, eu mesmo -07/2006)

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Humano: tridimensionalmente desequilibrado

Ser humano é trifásico!
(Permitam-me aqui o trocadilho,
já que, com o artigo, o sentido seria básico.)
Mas nenhuma delas lhe dará trilho.


                   Pois é preciso que se resumam suas três fases num só terreno.
                                                   Ser bicho, ser deus e ser gente;
                                                   Ser alegre, ser triste e sereno.
                  Isso posto sob equilíbrio, será o homem um bom agente.


E em tudo mesmo o humano é três:
Espírito, corpo e mente;
Amizade, convenção e leis;
É ferível, é pensante e é crente.

E por que não consegue o humano a temperança?
Ou é um, ou é outro, ou ainda o terceiro;
Mas nunca a síntese da esperança.
Sempre fugitivo, sempre omisso, ou sempre guerreiro.

Manhã, noite, tarde;
            Criança, adulto, adolescente.
                                     Cada qual com seu alarde,
                                                        Cada qual com seu (tempo) presente.

O humano é criança, pois dota-se de inocência;
                           É também adulto, pois se acha um todo consciente.           
Porém é mais adolescente, com sua pseudoconsciência                      
E seu falso ar de inocente.                                                                                      






quinta-feira, 9 de junho de 2011

O castigo segundo os avós

Lembram-se  da grande chuva,
                De águas potentes e turvas,
                           Que num tempo a nós precedente
                                       Findou os podres e seus coniventes?


Limpado de tudo o que havia de imundo,
Límpido e pleno tornou-se o mundo.
Apenas um bom e seus seguidores,
Dignos de piedade, viveram em flores.


Também se salvaram os pobres irracionais.
Do grilo ao elefante, formaram-se casais.
E ao fim de algum tempo, o sinal da Oliveira:
A água fora cessada, e eles viveram uma vida inteira.


        Isso é um aviso, porque vivemos de enganos.
Mentiras e improvisos mantêm os seres humanos                
Naquele tempo era outra vida, outro jogo.                                             
Agora tudo é diferente: ao invés de água, virá fogo.                                                





Dinho, eu mesmo. 06/2011

terça-feira, 3 de maio de 2011

Língua

Eis aqui a minha temática:
Língua viva pela Gramática
Defendo o verbo, a pragmática;
Pois esta é bela, além de tática


A norma é pura teoria,
Inconveniente e vazia.
Às vezes, tão ruim e fria,
Que chega a causar cacofonia.


Vamos viver à nossa fala;
Pois regra nenhuma nos cala,
Já que a livre voz não entala




Notem que a voz do ambiente
Em que vivo com mina gente
Não é ao mundo inexistente...

(Dinho, eu mesmo - 06/2006)

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Binóculos

Tenho meus óculos sobre a estante
E tenho meus olhos sobre a poltrona.
Estes daqueles não saem um instante,
Pondo meu eu à imagem matrona.








Por eles sou o que sou: um normal:
Que não pode a vida sem suas lentes;
Que não pode ser vivo sem canal;
Que não pode excetuar-se das gentes...






Tenho meus olhos e tenho meus óculos,
E, através deles, um  mundo feliz,
até que alguém me ofereça binóculos.










Então revejo tudo o que não fiz,
E meus regalos em tão falsos rótulos.
Agora, veja, sou louça... sou de giz...

domingo, 3 de abril de 2011

Outra crônica

Resenha Crônica

Neste exato momento começa a nascer a resenha das resenhas e a crônica das crônicas. É verdadeiramente uma na outra, entrelaçadas e costuradas como uma única criação.
Ainda por ser publicada, esta crônica será resenhada durante seu próprio nascimento, numa espécie de autocrítica contínua e infindável. Por outro lado, quem vier a ler esta crítica verá que ela analisa um texto metalingüístico, cuja abordagem indica, nas entrelinhas, como não se deve resenhar uma crônica; se é que esta é passível de ser resenhada.
O autor das obras aqui presentes inicia seus trabalhos com uma perfeita noção do que é ser presunçoso e abusado. Seu senso de autocrítica, logo de inicio, parece estar bem distante da serenidade de saber o que está ou virá a escrever. Prova disso é a ousadia do escritor ao se referir ao presente texto como “obras aqui presentes”.
Daí então, ver-se-á que, de qualquer pessoa que venha a ler isto, surgirá a seguinte questão: quais são as obras aqui presentes?
Para começar, uma resenha deve ter a objetividade de indicar sobre o que ela está falando. E para isso, é necessário que seu objeto de análise exista de fato e possa ser comprovado - nesse caso, lido. Bom, se isto aqui é uma resenha, obviamente eu, você ou qualquer outra pessoa está lendo uma análise. No entanto, não me parece que ela está falando de um outro texto propriamente dito. Além do mais, isto tampouco me parece uma crônica, visto seu corpo não estar de acordo com o tipo textual apropriado. Ou seja, não vejo aqui nem uma resenha nem uma crônica. E quer saber por quê?
Porque, para uma crônica, esta coisa aqui não tem um começo bem definido. Não tem um desenrolar de fatos claro, objetivo. Não é um ”causo” em si. Não tem trama, conflito, nada. Ao ler uma coisa como esta, não se sabe como começou a leitura nem como ela terminará.
Portanto, isto não é uma crônica. E se não o é, não existe. E se não existe, não pode ser resenhada; não sendo, consequentemente, uma resenha também.
E para matar de uma vez esse problema crônico literário, é melhor que ninguém mais insista em ler isto, visto que a presunção do escritor juntou-se à confusão do narrador, o qual já não sabe se é um autor enlouquecido ou se é um crítico criado para um texto que nem nasceu.

(Dinho, eu mesmo - 04/2011)